Ei, só vim avisar que estou desistindo, ok? Acho que assim será melhor, com ou sem você, já não importa mais. Venho vivendo em um permanente e inútil sacrifício, apenas mudarei o foco. Prometo esquecer-te. Aprendi a lembrar de ti a todo momento, agora bastará lembrar de te esquecer. Não vai ser difícil, vou tentar lembrar do muito que te dei e do pouco que recebi, vou lembrar dos sorrisos que desejei enquanto as lágrimas tomavam conta de mim, vou lembrar do quanto te amei e o que isso significou pra você. Bom, será assim. Vou sofrer como antes, mas dessa vez terei amor próprio, cuidarei mais do meu “eu”. Posso ter sido mais um pra você, mas sou único pra mim.
Vou deitar
Pensar
Pensar
Pensar
Planejar
Ter saudade de você e quem sabe, com sorte, eu durmo.
Vou te ligar. Fico matutando apegado ao assunto o dia todo, como aquele último chiclete de esperança, que já está gasto e sem gosto, mas você continua insistindo em mascar, muito porque não sabe mais o que fazer com a própria língua e dentes. Você pode estar doente. Pode estar carente, com saudade, precisando me dizer uma coisa que nunca teve coragem de dizer. Pego o telefone e uma maçã. Talvez morder alguma fruta no meio do diálogo dê a impressão de que te ligar é um acontecimento casual, que estou nem aí na verdade, só estou fazendo hora porque a água do meu banho ainda não esquentou, e eu estava sem nada pra fazer de toda forma. “E aí, como vão as coisas?”, ensaio. Abocanho a maçã, mas não digito seus números. Quando crio coragem, o buraco na fruta exibe a carne ressecando e escurecendo de oxidação. Ligo, chama-chama e não atende. Me sinto enjoado. A secretária eletrônica me encaminha até a caixa postal. Deixo recado: – Juro, dessa vez estive muito perto de te esquecer.
Você está nem aí, mas hoje me perguntaram uma coisa e eu gostaria de compartilhar com o resto de importância que me resta de você. Perguntaram para mim, o que eu vi em você para começar a gostar. Perguntaram o que eu vi em você, e essa foi a primeira vez que eu fiquei sem resposta. Me esqueci completamente do que me fez me apaixonar por você. Você viu o que você fez em mim? Me deixou com amnésia, começou a arrancar todas as memórias boas que estavam aqui, e agora? Me esqueci o motivo que me faz parecer idiota todas as noites te mandando mensagens de piedade. Misericórdia seria a palavra mais apropriada. Me esqueci do motivo que me faz acordar todos os dias e ver meu celular, minha caixa de e-mails, até minha caixa de correio para ver se você me deu um sinal, uma faísca de esperança que seja. Antes tinha uma faísca. Tinha sim. Agora, só cinzas, ou nem isso. O que eu vi em você? Eu não sei, mas o que eu não vi em você e continuo não vendo, posso falar disso o resto do dia, e são essas coisas que eu não vi que me mantém assim, idiota por você. Pois eu quero encontrar, só não sei se vou, ou se ainda vale a pena.
Cansar, todo mundo cansa. Mas ninguém morre de cansaço. É normal querer chutar o balde. Você não é diferente dos outros. Todo mundo cansa da cara de todo mundo. E nem por causa disso você vai largar o seu chefe quando ele pegar no seu pé, vai largar a escola, vai largar os estudos, vai abandonar a faculdade quando cansar dos professores, vai largar a mulher quando cansar da cara dela, vai abandonar o filho quando não aguentar mais a mesma rotina de pai. Ou vai? A escolha é sua. A consequência também. Se quiser um estímulo para estudar, pense que quando largar o colégio nunca mais vai ter que olhar para a cara desses tais idiotas. Pense que não terá mais que estudar o que você não quer. Mas se quiser ficar reclamando da vida, tudo bem. Só tornará as coisas mais difíceis pra você mesmo. E só pra você. Todo mundo já tem suas próprias coisas pra se cansar.